Arquitetura da destruição

É o que dá a entender a bela reportagem “Arquitetura da Destruição”, publicada na revista Rolling Stone deste mês de maio. Infelizmente o conteúdo não está disponível online. Aproveito e reproduzo abaixo um trecho que relata uma situação muito próxima da minha realidade. No passado recente eu morei a 300 metros do local. As personagens retratadas são amigos, gente próxima. Toda a solidariedade aos amigos da Vila da Paz, ao companheiro Dito.

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ARQUITETURA DA DESTRUIÇÃO

Por Ana Aranha e Maurício Montero Filho (publicada na Rolling Stone, 56)

Em um domingo ensolarado de abril, na região Sudeste da capital (SP), dezenas de moradores se reuniram na favela da Paz, localizada nas imediações do Parque Bristol, próximo ao Jardim Zoológico. O tema da reunião era a nova pintura dos barracos ao longo da principal rua da comunidade. As fachadas da via pareciam obra de pichadores nada familiarizados com a evolução da arte urbana nos últimos anos. Em várias delas, lia-se a inscrição “AI”, em spray preto sobre alvenaria, seguida de um número. Logo acima, a assinatura que delatava a autoria das pinturas: PMSP – Prefeitura Municipal de São Paulo. Foi assim, com pichações sem qualquer aviso prévio, que os moradores da área souberam que suas casas seriam derruba das. “AI” significa Auto de Interdição. E os pichadores eram funcionários da própria prefeitura.

Rumores sobre a chegada daquele dia pairavam sobre a comunidade havia anos. Neuza Leocádia estava em casa quando ele bateu à sua porta. Junto com a nova fachada, ela recebeu os documentos referentes à interdição de sua residência e um chamado para comparecer à Secretaria. “Eu estava quieta,  mas vieram pichar meu barraco…”, diz ela. Agora, vai ser difícil que ela volte a ficar calada. Moradora da Vila da Paz desde 1991, ela integra o comitê da comunidade que dialogará coma prefeitura paulistana.

Neuza e vários líderes do movimento de moradia coordenam o encontro na rua. Contando com um sistema de som, eles atraem os passantes e combinam a estratégia para lidar com a ameaça de remoção. A principal ação é negar qualquer oferta de dinheiro por parte das autoridades. Quando alguns moradores disseram ter recebido R$ 1.200, a multidão exclamou em coro: “Devolve! Devolve o cheque-despejo!”.

O motivo alegado pela prefeitura para a derrubada das casas é o fato de elas terem sido incluídas num  mapeamento de áreas de risco feito em 2010, em pareceria com o Instituto de Pesquisas Tecnológicas. O órgão identificou 407 regiões da cidade ameaçadas por deslizamentos ou enchentes. E a Zona Sul lidera o ranking, com 176 comunidades na lista. Alguns moradores não reconhecem a ameaça. “Isso aqui não é área de risco. Eu pago água, luz e telefone. Minha casa nunca encheu”, diz um deles. Neuza, que mora ao lado de um córrego, reconhece que, quando chove forte, a água sobe bastante. A discordância dela tem muito mais a ver com a questionável estratégia da prefeitura na abordagem do problema.

Para Dito Barbosa, líder da União dos Movimentos de Moradia, o que está acorrendo pode ser definido como bullying social. “Estão criminalizando a pobreza”, afirma. “Até o laudo do IPT, tudo foi feito de forma legal. Mas, daí pra frente, é tudo ilegal, as pichações, a intimidação… Se existe risco, qual o plano de reassentamento? Não se pode aproveitar essa situação pra fazer limpeza social.”

Segundo Barbosa, a falata de transparência e debate te a ver com o que ele chama de “militarização das subprefeituras”. “A maioria desses órgãos é controlada por coronéis de postura extremamente conservadora. Essa é a causa mais grave da repressão aos movimentos sociais”, diz.

E alfineta: “Se a prefeitura defende o programa Cidade Limpa, por que picha a casa das pessoas”.

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